10# CULTURA 23.7.14

     10#1 O BA DE JORGE AMADO
     10#2 O REI DO EMBUSTE
     10#3 FARKAS INDITO
     10#4 EM CARTAZ  TEATRO - A VELHA DE BOB WILSON
     10#5 EM CARTAZ  LIVROS - O LTIMO LIVRO DE NADINE GORDIMER
     10#6 EM CARTAZ  CINEMA - OS MACACOS CONTRA-ATACAM
     10#7 EM CARTAZ  FOTOGRAFIA - A BAB QUE FOTOGRAFAVA COMO CARTIER-BRESSON
     10#8 EM CARTAZ  CD - NO BALANO DO SAMBA-ROCK
     10#9 EM CARTAZ  AGENDA - FESTIVAL LATINO-AMERICANO/ARTE IORUB/PRICLES CAVALCANTI

10#1 O BA DE JORGE AMADO
Reforma na casa onde vivia, na Bahia, descobre e recupera centenas de obras de arte, correspondncias e objetos que recontam a vida de um dos escritores brasileiros mais conhecidos no mundo
Ana Weiss (ana.weiss@istoe.com.br)

Jorge Amado era um acumulador. Depois da morte, em 2008, de Zlia Gattai, escritora e viva do autor, o acervo, que s de telas somava mais de 600 peas, virou um problema. Obras de arte como quadros de Djanira, Segall, Caryb, Pancetti, Diego Rivera e Pablo Picasso no poderiam permanecer fechados na casa baiana em que o autor comprou com a mulher nos anos 1960, com o dinheiro ganho com os direitos sobre o filme Gabriela. Depois de uma dcada fechada, marcada por sinais de abandono, a casa do Rio Vermelho teve as portas abertas para uma reforma que se aproxima do fim. Nesse processo, alm de arte, objetos e documentos foram encontrados, outros recuperados e quase todos catalogados. Tudo isso  e mais as obras de arte que os herdeiros venderam, leiloaram ou doaram durante os ltimos anos  poder ser conhecido do pblico a partir de setembro, quando o endereo se tornar um centro cultural pblico de documentao e memria do escritor que apresentou a Bahia para o mundo.

Muitas das peas sero reproduzidas nos lugares que ocuparam originalmente por projees. A tela Gabriela, homenagem de Di Cavalcanti  personagem eternizada no cinema pela atriz Snia Braga, passar a ser projetada em escala natural na parede do quarto do casal, exatamente no lugar que ocupava durante sua vida  ao lado de uma cermica assinada por Pablo Picasso e uma tela de Djanira. As obras que no ficaram na casa foram fotografadas e reproduzidas da forma mais fiel possvel, diz Gringo Cardia, arquiteto responsvel pela reforma e pela curadoria do acervo. Apesar da especializao em cenografia, Cardia fez mais do que replicar o ambiente domstico original. As cartas encontradas, trocadas com os poetas Carlos Drummond de Andrade e Pablo Neruda, por exemplo, e outras j conhecidas sero guardadas em uma sala dedicada s  vasta e riqussima correspondncia do autor. Fotografias e registros de viagens, como a expedio pelo Pas com o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, ficaro disponveis em um setor dedicado somente aos amigos, que dizem se tratar de uma das maiores colees deixadas pelo autor.

TESOUROS - Ao lado da azulejaria pintada  mo por Caryb, referncias aos instrumentos dos orixs Oxum e Oxossi, e obras de Di Cavalcanti, Djanira e Picasso voltam s paredes s quais pertenceram, por meio de projees

O criador de Dona Flor e Seus Dois Maridos pulava da estante de grandes personalidades para seus coraes. Foram seus leitores quase todos os grandes pensadores da esquerda dos pases em que foi traduzido a partir da metade do sculo XX. E no  pouco. Nada escrito em terras brasileiras, sobre o Brasil, ganhou tantas tradues. Vertido em 49 idiomas e lido em 55 naes, o Pas no teve nem de perto, at hoje, outro ficcionista to adaptado  para cinema, televiso e teatro. Hoje sua fico s perde em vendas para o mago Paulo Coelho. So leitores vorazes de sua obra autores distantes, como Jos Sarney e Salman Rushdie.

Exatamente por isso  que, investigando a vida do etngrafo francs Pierre Verger, a pesquisadora Joslia Aguiar descobriu quo inescapvel  a figura de Jorge Amado de tudo que se conhece hoje da cultura baiana. Verger teve vontade de conhecer a Bahia quando leu Jorge Amado em Paris antes da Segunda Guerra Mundial; depois, estabelecido na Bahia a partir dos anos 40-50, fez parte do grupo de amigos que frequentariam a Casa do Rio Vermelho, conta a tambm historiadora, que finaliza uma biografia sobre o autor baiano, prevista para sair no segundo semestre pela editora Trs Estrelas.

A bigrafa adianta que uma das misses de seu livro  desfazer teses sem fundamento sobre a repercusso da obra do escritor, como o fato de ele ser amado pelo pblico e desconsiderado pela crtica. Das crticas ruins, a mais citada e a que sobrevive at hoje  a de lvaro Lins, o senhor do rodap literrio brasileiro no perodo. Na mesma poca, no entanto, temos um jovem crtico chamado Antonio Candido que defende Jorge Amado. Esse  um exemplo, entre vrios, diz a pesquisadora. Joslia lembra que existem textos crticos sobre o ficcionista em todos os pases em que foi publicado, um outro feito tratando-se de literatura brasileira. Os primeiras foram publicados na Rssia, nos anos 1950. H trabalhos sobre ele em todo o mundo, em todos os lugares onde foi editado. Ou seja, no era apenas um best-seller brasileiro, como muitas vezes fazem parecer os crticos mais duros; sua literatura  realmente levada a srio.


10#2 O REI DO EMBUSTE
ISTO revela como ser o documentrio "O Rei da Vaia", sobre Carlos Imperial, personagem importante do show biz brasileiro que lanou e destruiu carreiras aplicando golpes e mentiras
Maria Elisa Arruk (mariaelisa@istoe.com.br)

Da noite para o dia, o ator Mrio Gomes viu o mundo desabar na sua cabea. Uma nota publicada no jornal Luta Democrtica, em maro de 1997, afirmava que o gal de 26 anos dera entrada no pronto socorro da Maternidade Fernando Magalhes, no Rio de Janeiro, para tratar de uma ocorrncia no mnimo inslita: extrair uma cenoura que estava entalada em local absolutamente invisvel. A notcia se espalhou como rastilho de plvora e, apesar de o personagem principal da mentira e o hospital desmentirem o fato, alojou-se no imaginrio coletivo do brasileiro. E nunca mais saiu de l. Mrio Gomes no conseguiu desmontar a fama criada pelo mais profissional boateiro da cena cultural brasileira, Carlos Imperial. O talento para a mentira, porm, mais criou que destruiu no show biz entre os anos 1960 e 1990. As peripcias do embusteiro a quem devemos a descoberta de Elis Regina, Roberto Carlos e Tim Maia recheiam o novo documentrio dos cineastas Ricardo Calil e Renato Terra. Chamado de O Rei da Vaia, em referncia  alcunha de que Imperial mais se orgulhava. O filme deve chegar s telas este ano.

AMOR PRPRIO - Imperial escreveu e produziu filmes nos quais assumia papis de destaque, como "Banana Mecnica"

Nascido em 1935 em Cachoeiro de Itapemirim (ES), Imperial queria ser ator. Conseguiu incluindo-se em alguns dos ttulos de pornochanchada que produziu, como Banana Mecnica e A Viva Virgem. Foi compositor de msicas de sucesso, como A Praa e Vem Quente que Estou Fervendo. Foi apresentador de televiso, colunista de revista e jornal, diretor de cinema, produtor teatral, dirigente de futebol, vereador e candidato a prefeito do Rio de Janeiro.

Uma de suas primeiras descobertas foi Roberto Carlos. Depois de muita rejeio, Imperial colocou o cantor dentro de um estdio pela primeira vez para gravar seu disco de estreia, apostando a vida que as mulheres iam adorar o jeitinho meigo que o descreditava no meio musical. Com o mesmo mpeto, abriu as portas do estrelato para Erasmo Carlos, Tim Maia, Wilson Simonal, Clara Nunes e Gretchen.

MENOR DE IDADE - Aos 16 anos, Elis gravou seu primeiro LP, "Viva a Brotolndia", graas ao produtor

Para alavancar suas carreiras, tinha a mentira como estratgia. E internacionalizou a MPB com aes to criativas quanto questionveis. Asa Branca tornou-se hit nos Estados Unidos depois do envio para rdios da terra do Tio Sam de fitas K7 com os Beatles interpretando a composio de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. O detalhe  que no eram os Beatles, mas sim a banda Eduardo e Seus Menestris tocando a cano sobre a seca nordestina. A banda inglesa possivelmente nunca ouviu falar em Asa Branca. At hoje tem gente que jura ter ido a Londres e ouvido a gravao por l. Imperial foi o arqutipo do malandro da zona sul carioca. Politicamente incorreto, era provocador, polmico e fanfarro, diz Calil. Mas se no fosse ele talvez Roberto Carlos no existisse.

A dupla de diretores se deu conta do tamanho do personagem durante as filmagens de seu documentrio anterior, o premiado Uma Noite em 67. Entrevistados como Chico Buarque, Roberto Carlos, Edu Lobo e Caetano Veloso citavam Imperial o tempo todo. Descobrimos uma histria de uma pessoa que viveu como um personagem de fico, conta Calil.

PUPILO - Ele tambm revelou Roberto Carlos, a quem chamava de "Elvis Presley brasileiro"

Com a publicao, em 2008, de Dez! Nota Dez!  Eu Sou Carlos Imperial, de Denilson Monteiro (esgotado, o livro ser relanado pela Editora Planeta em outubro deste ano), o projeto ganhou flego. A pesquisa serviu de referncia para as filmagens de O Rei da Vaia, que contou com o depoimento de mais de 40 pessoas. A famlia confirma que Imperial no se despia do personagem nem dentro de casa. Marco Antnio Imperial, filho mais novo, por exemplo, conta que o produtor recomendava na adolescncia uma alternncia de parceiras, troca que deveria ser feita a cada quatro meses, pelo menos.


10#3 FARKAS INDITO
Imagens realizadas em Kodachrome mostram os primeiros testes no Brasil do filme icnico do incio da fotografia colorida
Maria Elisa Arruk (mariaelisa@istoe.com.br)

Guardada em uma pequena caixa por 65 anos, uma srie de transparncias do fotgrafo hngaro Thomaz Farkas acaba de vir  luz. Elas foram descobertas quando Kiko Farkas vasculhava as gavetas do antigo escritrio que dividia com o pai no bairro de Pinheiros, em So Paulo, a fim de selecionar material para uma exposio a ser realizada em outubro, na Luciana Brito Galeria, tambm na capital paulista.

ESCONDIDA  - Imagem realizada no final dos anos 1940 ficou guardada por mais de 60 anos. Cedida  Isto pelo filho, Kiko Farkas, participar de uma exposio em outubro

Datadas de 1949  dez anos antes de ele assumir a Fotoptica, maior parceira brasileira da Kodak , as transparncias trazem diferentes pontos do centro de So Paulo ocupados por uma personagem pouco vista em suas imagens, a viva do fotgrafo, Melanie. Todas elas, agora ampliadas, foram realizadas em Kodachrome, o filme preferido de fotgrafos profissionais, graas  sua riqueza de cor e luz, descritas como incomparveis.

Kodachrome  mais do que um filme,  um cone da cultura pop, declarou ao The New York Times Todd Gustavson, curador do museu George Eastman House, que funciona na antiga residncia do fundador da Kodak, em Rochester, perto de Nova York.

Ao usar o Kodachrome, Thomaz Farkas testava pela primeira vez um filme colorido  tcnica muito pouco explorada na sua obra, conhecida acima de tudo pela produo em preto e branco. E era privilgio de poucos. Como existiam apenas alguns laboratrios nos Estados Unidos e na Europa com equipamentos para revelao em K-14, processo caro, o Kodachrome foi pouco comercializado no Brasil nos anos 1950 e 1960, comenta Sergio Burgi, curador da exposio e coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles, que guarda o acervo do fotgrafo. Esse esprito experimental e investigativo, conclui Burgi, caracteriza Thomaz Farkas desde cedo.


10#4 EM CARTAZ  TEATRO - A VELHA DE BOB WILSON
Ana Weiss (ana.weiss@istoe.com.br)

A novela A Velha, escrita pelo russo Daniil Kharms, pouco antes de ele ser executado em um campo de trabalho forado da ex-Unio Sovitica, uniu o diretor americano Bob Wilson e o bailarino Mikhail Baryshnikov, que h anos desejavam trabalhar juntos. Do gnero absurdo, ao estilo de Beckett e Ionesco, conta a histria de um escritor assombrado pelo fantasma de uma senhora. Na montagem, o ator Willem Dafoe contracena com Baryshnikov. Eles fazem uma dupla de palhaos, atuando como se fossem um nico personagem: o narrador do conto de Kharms.The Old Woman  A Velha ser encenada de 24 de julho a 3 de agosto, em So Paulo, e nos dias 8 e 10 de agosto, no Rio de Janeiro. 

+ 5 peas do diretor encenadas no Brasil
A DAMA DO MAR
 Adaptao de Susan Sontag para o clssico de Ibsen. O espetculo contou com elenco brasileiro.

A LTIMA GRAVAO DE KRAPP
 Encenao da pea de Samuel Beckett, que apresenta um septuagenrio fazendo um amargo balano da vida.

LULU
 Parceria entre Wilson e a Berliner Ensemble. O texto de Frank Wedekind tem como protagonista uma danarina de cabar

A PERA DOS TRS VINTNS
 No texto de Bertolt Brecht, um ladro se casa com a filha de um homem que explora mendigos.
  
QUARTETT
 Com texto de Heiner Mller, o espetculo apresentou um duelo verbal entre dois libertinos. A atriz Isabelle Huppert estava no elenco.


10#5 EM CARTAZ  LIVROS - O LTIMO LIVRO DE NADINE GORDIMER
por Ana Weiss (ana.weiss@istoe.com.br)

A novela O Melhor Tempo  o Presente chegou ao Brasil com a notcia da morte de sua autora, a Nobel de Literatura Nadine Gordimer. A autora sul-africana, que morreu dormindo em casa, na companhia dos dois filhos, no domingo 13, retomou no novo romance a questo da segregao racial, revivida a cada dia pelo abismo econmico que ainda separa as pessoas nascidas em seu pas, revelando o que permaneceu igual aps 20 anos do fim do apartheid, regime que ajudou a combater ao lado do grande amigo Nelson Mandela.  


10#6 EM CARTAZ  CINEMA - OS MACACOS CONTRA-ATACAM
por Ana Weiss (ana.weiss@istoe.com.br)

Planeta dos Macacos: O Confronto d continuidade a Planeta dos Macacos  A Origem, que apresentou a histria do cientista Will Rodman, inventor de uma droga capaz de tornar os primatas altamente inteligentes. Na nova produo dez anos se passaram e o macaco Csar  o lder de uma colnia de primatas ameaada pelos poucos humanos que sobreviveram a uma epidemia mundial de gripe smia. Os efeitos especiais, que chegam  perfeio, foram realizados pelos estdios da empresa neozelandesa Weta Digital, a mesma de O Hobbit e Avatar.


10#7 EM CARTAZ  FOTOGRAFIA - A BAB QUE FOTOGRAFAVA COMO CARTIER-BRESSON
Maria Elisa Arruk (mariaelisa@istoe.com.br)

O conto Vivian Maier corre o mundo desde 2009, quando John Maloof postou na internet algumas de suas fotografias arrematadas em um leilo, por uma pechincha. Vivian havia falecido meses antes, aos 83 anos. Isso sem nunca ter mostrado seu trabalho nem mesmo revelado suas intenes como fotgrafa a ningum, deixando um legado de 100 mil imagens. Ela  um caso extremo de descoberta pstuma, escreve Geoff Dyer no prefcio do livro Vivian Maier  Uma Fotgrafa de Rua (Autntica). O livro atesta o rigor tcnico e esttico da bab fotgrafa, cujo trabalho foi comparado ao de Robert Frank, Cartier-Bresson, Diane Arbus e Weegee.


10#8 EM CARTAZ  CD - NO BALANO DO SAMBA-ROCK
Maria Elisa Arruk (mariaelisa@istoe.com.br)

As msicas do quarto lbum da banda paulistana Clube do Balano foram testadas em ensaios abertos, em um teatro do bairro da Vila Madalena, em So Paulo, para um pblico disposto a danar. Menina da Janela retoma assim o esprito inaugural do grupo, que nasceu em 1999 com o propsito de animar uma nica festa, inspirada nos bailes que ocorriam em sales da periferia de So Paulo, na dcada de 1960.


10#9 EM CARTAZ  AGENDA - FESTIVAL LATINO-AMERICANO/ARTE IORUB/PRICLES CAVALCANTI 
Confira os destaques da semana
Maria Elisa Arruk (mariaelisa@istoe.com.br)

FESTIVAL LATINO-AMERICANO
 (Em sete salas de cinema de So Paulo, de 24 a 30/7)  Gratuito, exibe filmes inditos de 15 pases latino-americanos. Os homenageados so o diretor Silvio Tendler e a atriz Leandra Leal.

ARTE IORUB
 (Masp, sem prazo para terminar)  Mostra com 49 obras recentemente doadas ao museu pelo colecionador e professor de fsica da USP Manoel Roberto Robilotta.

PRICLES CAVALCANTI 
 (Sesc Belenzinho, em So Paulo, dia 20/7)  O compositor apresenta canes do disco Frevox e relembra composies mais conhecidas, como Elegia e Negro Amor.

